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O DOQUINHA
                                    O DOQUINHA

          O sol já estava brilhando e seus raios penetrando as frestas da  casa por terminar. Doquinha levou um susto.  Levantou rapidamente, fez o café e tomou depressa, tão rápido que nem deu tempo de fazer a digestão. Olhou para o relógio. Eram mais de oito horas. Entraria às seis no trabalho.  Ficou murmurando enquanto fazia a higiene bucal. Preocupado o que diria para o patrão.

          - Mulher Por que não me acordou?  Mas por que não acordamos, será que o relógio não despertou? – Perguntou o homem bem nervoso.
          - Não despertou.  – Respondeu Nina, sem dizer mais palavra alguma.
O homem continuou nervoso e preocupado. Parecia que ia dar um chilique.
          - O que eu vou dizer para o patrão e à patroa?
          - Muito fácil. Vira-te homem! Diz que se atrasou, e pronto!

          Dona Nina sabia o que estava acontecendo, mas não disse nada pra ver até onde chegaria o nervosismo do marido. De propósito não colocou o relógio pra despertar.

          O ronco de um carro que parou na frente da casa. Sr Dourival, o Doquinha desconfiado pergunta:
          - Será que é o seu Juvêncio que veio ver por que não fui trabalhar?
          O homem preocupado olha pela fresta da janela. Era o compadre José, seu colega que estava em férias e o padre João, conhecido da família.
          - Não entendi. Já estou atrasado, e eles vêm me atrapalhar. Saia lá e diz que acabei de sair para o trabalho. Vamos Nina, ajude-me...
          - Não senhor! Não vou mentir. Tu não sabes que é melhor falar à verdade?
          - Nunca cheguei atrasado todos esses anos. Mas é melhor contar o certo. Como diz uma frase que ouvi numa certa feita: “A verdade dói,  mas cura. A mentira é um paliativo que vai doer no final”. Vou enfrentar. Seja o que Deus quiser.
          - Bom dia meu filho. – Disse o padre. Qual o motivo do nervosismo?
          - Bom dia padre. A sua bênção.
Falou Dourival arrumando as mãos postas em seu peito.
          - Deus te abençoe. O que está acontecendo contigo? Está meio nervoso.
          - Sim, porque hoje perdi a hora pra ir trabalhar. O patrão deve estar uma fera comigo.  Ele é gente boa, mas não posso abusar. Não é do meu feitio...
          - Viemos a pedido do Sr Juvêncio e da Sra. Carolina. – Interrompeu o padre João. Ele nos deu por escrito neste papel.
          “Papel, meu Deus!” – Pensou Doquinha.
          - Olha o que está escrito. – Continuou o vigário. É pra levar o Sr. Dourival Cortez e Sra. Joanina Silva Cortez. Esse é o seu nome completo?

          Doquinha com um cigarro na mão pra acender. Nessa hora ele tremia tanto que chegou derrubar o cigarro no chão. Enquanto a esposa se aprontava no quaro pra irem, ficava rindo do esposo.

          - Compadre, estamos com pressa. Dá uma agilizada. Temos pressa. Apronte-te de uma vez.

          Dona Nina e seu Doca  entraram no carro. Ele não sabia de nada, só ela que sabia de tudo. Quando chegaram na empresa, estavam reunidos todos os funcionários no pátio. Ao entrarem, todos cantaram parabéns a você. O homem emocionado perguntou o que estava acontecendo e o porquê de tudo aquilo. Disse que não era o dia do seu aniversário. Juvêncio pegou o microfone. Fez sinal para que fizessem silêncio.  A ordem foi obedecida. O patrão começou a falar:
          - Hoje a nossa empresa está em festa. O padre João vai celebrar uma missa campal. Depois vamos ter algumas surpresas. Lá pelo meio dia ou uma hora vai ser o almoço. O costelão de fogo de chão já colocamos às setes e meia.

          Entregou o microfone pra mulher, foi até onde estava o Doca  e deu-lhe um abraço e outro em Nina. O velho repirou aliviado.

          Doquinha cada vez mais desconfiado. Ninguém havia lhe avisado que  naquele dia não trabalhariam e muito menos que havia festança. Após a missa começaram a sortear alguns brindes. Colocaram pedacinhos de papéis com os nomes dos funcionários. Naquele sorteio Doca não ganhou nada.
          - Sou azarado mesmo. Nunca ganho nada. - Queixou-se Doca ao colega que estava do lado.
Terminado o sorteio a patroa pegou o microfone e anunciou que iriam homenagear alguns funcionários que sempre prestaram bons serviços, e alguns escolhidos pelos próprios colegas, através de votação. O primeiro a ser chamado foi Doca pela sua honestidade e pontualidade no trabalho.  Depois outros colegas receberam o troféu. Em seguida foi servido o chope, depois o almoço. A costela formou um tipo de casca crocante, e por dentro derretia. “até louco comeria”, de tão deliciosa que estava. – Disse uma das mulheres ali presente.

Na hora do almoço o patrão começou a fazer o discurso agradecendo a todos pelo excelente resultado alcançado. No fim falou de uma pessoa  que trabalhava com ele desde o início das atividades. Um dos pioneiros, ou melhor, o único que ainda continuava lhe ajudando. Nos momentos difíceis ele esteve sempre junto.  Nunca o abandonou. Algumas vezes que a empresa estava mal, este permaneceu fiel ao seu lado.  Em votação dos empregados e participação da diretoria havia ganho o troféu de “operário padrão”. Junto com esse, um certificado numa moldura dourada dourada. Junto com certificado, um cheque nominal no valor de cem vezes mais do salário que esse alguém recebia. Ele já chamaria o funcionário, e todos os demais iriam ficar sabendo. Era pra aguardar. Em seguida falou:
          - Esse funcionário, vamos chamar agora aqui. Vou entregar a ele tudo isso que anunciei. Ele... merece. Esse é apenas uma fagulha de tudo aquilo que merece.  Esse não é outro, senão... o senhor Dourival Cortez, nosso popular Doquinha....

(Christiano Nunes)
Christiano Nunes
Enviado por Christiano Nunes em 17/06/2012
Alterado em 17/06/2012
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